Um lugar não é feito por pessoas famosas, muito embora às vezes sejam essas personalidades que tornem lugares conhecidos. Uma região, independentemente de seu tamanho, é feita por pessoas comuns, que levam vidas corriqueiras, trabalham, conversam, passeiam, compram, vendem, vivem.
O Largo do Machado tem muito disso. Pessoas comuns, mas extraordinárias. Esta coluna tem como missão, torná-las, senão famosas, pelo menos prestigiadas, com suas opiniões e pensamentos.
     São pessoas como nosso personagem desta edição, Ricardo de Farias, o pernambucano de 75 anos que escolheu o Rio de Janeiro como lar e que vive há mais de 30 anos no Largo do Machado. Cidadão exemplar, é casado há 45 anos com dona Benvinda, portuguesa tradicional. Juntos têm dois filhos arquitetos, que buscaram fora do país expandir a história da família. Seu Ricardo foi militar, formou-se químico e trabalhou na Petrobras, onde se aposentou. Hoje ele curte a vida e aproveita seus dias no melhor lugar que conhece: o Largo do Machado. 
    Seu Ricardo é pouco conhecido por esse nome, mas basta dizer “Ruy Barbosa” que muitos reconhecem na hora. O apelido honroso ganhou pela semelhança (pequena, acho eu, do amigo Amaury) com o famoso personagem do início da república brasileira. Ele diz que não, mas tem muito mais semelhanças ideológicas com o homem histórico de outrora que visuais.
Circuito: Por que o senhor escolheu esta região para viver?
Ruy Barbosa: Esta região sempre foi aprazível. Temos nossa Igreja Matriz, as árvores do Largo, os bons freqüentadores e tudo isso me encanta.
O que o senhor mais gosta são as pessoas daqui?
Ruy Barbosa: Sim, a comunidade. Mas gosto de muita coisa: o ambiente, por exemplo. Tudo me agrada.
A prova disso é a confraria que o senhor criou.
Ruy Barbosa: É verdade. Criamos um grupo para unir as pessoas e também para chamar a atenção em coisas que são necessárias. É o Corredor Cultural da Adega Largo do Machado. 
Existem pontos que podem melhorar?
Ruy Barbosa: Evidentemente. É o caso de nossa segurança, principalmente à noite. Temos também a questão social, pessoas dormindo na rua. É preciso trabalhar para ajudar essas pessoas – coitadas! Muitos criticam e dizem que são apenas bandidos, mas precisamos saber o que as levou a chegar nessas condições. O que não podemos é simplesmente expulsá-las, mas tentar ajudá-las a ter oportunidades.
Se pudesse trazer benefícios para cá, o que o senhor traria, que considera mais urgente?
Ruy Barbosa: Acho que não há coisas urgentes que precisamos aqui. Mas eu aumentaria a segurança, o policiamento, melhoraria a iluminação pública, traria mais saúde, com um posto de atendimento.
O senhor já vive aqui há mais de 30 anos. Nesse tempo, o que viu de mais marcante?
Ruy Barbosa: Dizem que esta praça é muito feia, mas ela foi se degradando com o tempo. Eu estava aqui na época boa, cheguei a ver os bondes, o que me traz muitas saudades. Era muito bonito. Mesmo assim, aqui temos tudo: condução, comércio, lazer. Eu vejo que as coisas mudaram muito, mas sempre para melhor.
Como é que o senhor aproveita essas qualidades da região? Como é seu cotidiano?
Ruy Barbosa:
Eu gosto de freqüentar este lugar (fizemos a entrevista em uma mesa da agradável Adega Portugália), onde encontro amigos (fomos interrompidos várias vezes por pessoas que cumprimentavam o Ruy), vou à igreja, ao cinema. Isto aqui é uma maravilha.
O senhor trocaria este lugar por outro?
Ruy Barbosa: Não atualmente, só se encontrasse algo melhor, o que desconheço. Esta calmaria, este ambiente, isso é muito bom. Eu gosto muito daqui.
Se tivesse que chamar alguém para conhecer esta região, como o senhor tentaria atrair esse visitante?
Ruy Barbosa: Diria que este é um lugar muito aconchegante e acolhedor, que só vindo para saber. Inclusive você, que está conversando comigo.
Mas, seu Ricardo... eu já estou aqui. E tenha certeza, o Largo do Machado é mesmo tudo isso. Bem se vê que o senhor é um homem sábio, como o próprio Ruy Barbosa.