Domitila esbarrou no fogão, na ponta maior da lenha que estalava no braseiro, tomou um susto danado com o barulho dos carvões esparramando estrelas encarnadas. Esticou as mãos pra frente em busca da mesa onde estavam os óculos, já de pouca serventia, mas melhor que nada, até poder ir a Itambé pro mode aviar uma lentes novas.
     E o Nezim, d'isconjuro, que nunca chega pra me levar no posto de saúde!
     Deve estar pastorando as raparigas do Bolero Azul ou sinão, bebendo com as vadias lá da Risina, bem ali em Poções. Faze male não, quando ele aparecer com dengos de “ó minha Dó”, “ô flor do meu coração” e outras parlapatices pra me adular, deixa estar meu mequetrefe que eu vou te dizer umas poucas e boas... E não me chame de Dó porque eu sou é Domitila Guimarães, senhora e dona dessa fazenda Uruçú, mãe de vinte filhos e mais vinte netos, viúva de quatro maridos, que Deus os tenha, e que não tenho saudades nenhumas...
     De modos que não sou eu quem vai amolecer o cangote por esse traste, Nezim de Valdemar, aparentado por detrás da serra, nem bem sei por parte de quem. A família é grande, já não tenho cabeça pra lembrar de todo mundo, parentada de cobras, todos dizem que parente é serpente, pois então, até os filhos dão seus botes e suas mordidas, não se importam com as nossas dores.
     Oxente, apois o Nezim não vem mesmo hoje, então vou tratar de mandar arriar o carro de boi pro mode de ir lá na cidade, vou eu e o Zé Candieiro, noves fora essa mile maldiçoada nas vistas, eu me garanto em tudo por tudo.
     - Ô de casa.

     - Ô de dentro (quem será a essa hora, meidia a pino, hora 

de tá todo mundo em suas casas, será o Benedito, quem vem aí?)
     - Ô Dona Domitila, a senhora está aí?
     Domitila arrepanhou as saias longas, tafuiou lá dentro uma peixeira e respondeu:
     - Estou sim, comadre Dadá, to indo.
     De fora do alpendre D. Dadá está se derretendo ao sol do meio dia, é que pela boa educação tem que se esperar o convite pra chegar mais pra sombra da varanda.
     Domitila salva a outra naquele seu modo seco, convida-a a entrar, oferece água e café, conforme o costume das cortesias no sertão. Mas Domitila está com a pulga atrás da orelha, quer saber o que Dadá veio fazer ali.
     - Bem, Dona Domitila, o que me traz aqui é um assunto que não vai lhe agradar...
     - Apois desembucha que eu estou preparada para qualquer notícia, de meu agrado ou não, tanto faz, nada mais me espanta nesse mundo de meu Deus.
     - Apois é sobre seu parente Nezim (e conta atrapalhadamente um caso onde entram putas, cavalos, bandidos, piropos, armas de fogo...).
     - Espere, não me fale mais nada. O infeliz do Nezim fugiu com alguma moça donzela?
     - É não, Nezim estava amasiado lá na casa das mulé dama com uma sujeita, até que descobriu que a talzinha, que não era mulé nem nada, estava dormindo com uma outra rameira, Aí pipocou bate boca e por fim trocaram tiros, até a morte do pirôpo e do Nezim.
     - E o que eu tenho com isso?
     - Mas não era seu parente? Não vai pegar o corpo do infeliz?
     - Tô muito velha pra dormir com macho, ainda mais macho-e-femea. Agora, a dona do puteiro que se arranje com essas duas carcaças, até porque o Nezim não era mesmo meu parente, de mais a mais ele não conseguiu nada de mim a não ser aquele carro velho que ele usava pra me levar aonde eu queria. Ah, teve também dois beijos, no rosto.
                                                                                    Rio, setembro de 2011.

Esse texto vai para a Grega.
Ilustração de Luzia Mariana - Contato: 9287-4501