Três doses de uísque. Mas Vinícius ainda se via incapaz de realizar o que sempre sonhou. Fez toda uma vida, construiu toda uma história, seguiu rigorosamente todos os passos que pensava serem necessários para ser bem sucedido em seu objetivo. Via-se à beira de um abismo, de frente para o nada, no fim do túnel, no fundo do poço. Eram tantas as coordenadas que não havia cristão que não se perdesse. Não sabia bem por que toda uma vida de trabalho havia-lhe negado um resultado que, para ele, não seria mais que o justo. Não seria ele bom o bastante? Ou, não teria sido a vida boa o bastante para ele? Não sabia a resposta.

A sabedoria popular sempre aconselhou Vinícius a nunca desistir de seus sonhos. Foi apostando nisso que Vinícius insistiu o quanto pôde em alcançar o que sempre almejou. Não foi por falta de tempo investido, nem mesmo por falta de suor que ele se sentia, agora, frustrado e odiando com todas as forças a sabedoria popular. 

Vinícius já não estava mais tão jovem e, sentia, como nunca, a passagem incoercível do tempo. Um tempo que fazia brotar em Vinícius não apenas a frustração de um desejo não realizado, mas também lampejos de novos planos que surgiam silenciosos. 

Esses planos se mostravam perfeitamente coerentes como a sua nova etapa de vida e completamente incompatíveis com o seu objetivo inicial. Era acometido, às vezes, por uma raiva incontrolável desses novos planos. Ao desejá-los, sentia-se traindo a si próprio; Traia um Vinícius que pensava ter existido anos atrás. 

Numa tarde qualquer, em que aproveitava para remoer, não sem satisfação, a sua incapacidade, o homem zapeava entre os canais da televisão. Parou em uma entrevista de um reconhecido chef de cozinha. O que lhe chamou atenção, o que fez com que parasse de zapear, não foi o seu interesse pela alta culinária, mas uma risada franca e gostosa. Com humor, o chef confidenciou que o seu percurso na culinária se devia ao fato dele ser um ex-futuro-advogado. 

Vinícius riu. Achou graça da maneira divertida com que o chef contava o seu percurso. Estranhou e, assim, questionou-se sobre o que havia no espaço que separa um estudante de direito de um chef de cozinha. Vinícius também não sabia responder essa questão. O que sabia, pela sua própria experiência, é que havia, nesse espaço, bastante sofrimento. O que não sabia, porém, era que essa travessia não poderia ser sem o riso. 

Patrícia Palombini
É psicóloga (Puc), mestre em psicologia pela UFF
e mestre em psicanálise pela UERJ.
patriciap@circuitolargodomachado.com.br